MAM I BA - Bob, sua obra é decididamente eclética e marcada pelo uso do retrato da figura humana. Em 2007, você realizou um projeto que culminou na exposição “A Caminho do Mar”, na galeria Millan, onde imagens de Cubatão rememoravam sua infância e abordavam a ambigüidade de questões como o urbano x o bucólico, e sentimentos contraditórios como medo x admiração. Em “Cinépolis”, há a presença de pessoas retratadas nas imagens, porém não como foco, como fim, mas como mais um elemento dentro de uma composição que preza, marcadamente, o conjunto, a comunhão – ou não - entre todos os elementos. Fale um pouco do lugar de onde você partiu para a concepção e realização deste projeto.

Bob - Na verdade, foi a incorporação de uma Leica digital adquirida há pouco tempo atrás, que me colocou diante desta nova experiência, onde o ponto de partida é muito diferente das minhas fotos de moda e mais ainda da minha exposição" A Caminho do Mar", por serem estes dois, digamos assim, pensados para serem algo, já no momento de sua execução fotográfica. "Cinépolis" nome dado pelo curador, editor e fotógrafo, o francês Pierre Devin, é um apanhado na forma de "Road Movie" de situações encontradas por mim e fotografadas sem a pretensão de compor um conjunto único, porém todas unificadas, não por um tema, mas pela subjetividade de um olhar. A partir do convite que me foi feito pelo Pierre e pelos nexos encontrados por ele no material que estava pronto, fotografado; comecei   a orientar as  novas fotos que completariam o trabalho no sentido de formarem uma unidade que correspondesse a esta narrativa apontada pelos pressupostos dele .

MAM I BA – Para a concepção de “Cinépolis” você optou por um equipamento mais leve, uma câmera digital, mas tratou as imagens no La Chambre Noire (grande laboratório de Paris). Qual o papel do tratamento das imagens, da etapa laboratório, para o resultado final deste projeto? Que resultados você perseguia ao escolher este tipo de revelação?

Bob - Na verdade foi mais uma comodidade, pois eu estava em Paris e o Pierre trabalha muito com o Guillaume Gineste, que é um dos maiores laboratoristas da França, o tratamento digital em si foi o mais invisível possível, eu quis preservar ao máximo os aspectos mais fotográficos da captação, sem truques ou mirabolâncias de tratamento.

MAM I BA – Você trabalha com fotografias a cores e em P&B. O que determina sua escolha por cada uma das técnicas?

Bob - Tenho uma longa tradição de fotografia pxb, mas ultimamente me tornei um colorista. A fotografia preto e branco, e isso é uma generalização maledicente minha, tipo "cuspindo no prato que comeu," sempre me pareceu mais aceita como a boa fotografia, aquela de bom tom, que todo mundo aceita como sofisticada, é  também contra isso, que me rebelei ao tentar trabalhos deliberadamente coloridos, me libertei de um certo bom gostismo atrelado à minha imagem.

MAM I BA – Apesar de “Cinépolis” ter sido produzida a cores, você manteve um forte contraste e a iluminação é grave, sombria, aproximando-se da tragicidade do P&B. Além disso, há tal nitidez na definição destas fotografias, que em certos momentos temos a impressão de que as pessoas, ou os objetos, vão começar a se mover...  

Bob - minha resposta anterior anula um pouco este aspecto trágico atribuído ao pxb, pelo contrario, as fotografias preto e brancas, na maioria das vezes, conferem uma plasticidade exagerada a temas trágicos.

MAM I BA – O livro deste projeto, que você apresenta nesta exposição, traz uma cronologia que parte da noite para o dia, da cidade (São Paulo) para o litoral. Cada imagem condensa uma narrativa. A palavra Cinépolis nos remete tanto ao cinema como à cidade. Fale um pouco deste cruzamento de linguagens, da articulação entre a fotografia, o cinema e as artes visuais, que percebemos cada vez mais freqüente entre artistas que trabalham com a imagem, desembocando em novas expressões híbridas como o cinema-instalação, por exemplo.

Bob - Pois é, um outro bom nome para este trabalho seria Transito ou mesmo Trânsito. Esta pra mim é uma questão das mais concernentes aos dias de hoje, e principalmente a mim mesmo, no sentido de eu estar em vários lugares e passar por várias disciplinas. As possibilidades geradas hoje em dia em termos artísticos são infinitamente diferentes das dos fotógrafos mais contemplativos e naifes resistentes até o final dos anos 60. Pra citar um exemplo mais baiano, seria impossível hoje em dia um Pierre Verger aparecer daquela forma como fotografava. De todo modo, transito mesmo dentro de varias disciplinas da fotografia, mas nunca flertei muito com vídeos e cinema, é um artesanato que não domino. Gosto mais das articulações com os textos. Edito uma revista em São Paulo a S/N que é a expressão desta articulação citada na sua pergunta

MAM I BA – Stanley Kubrik iniciou sua carreira como fotógrafo, expressão que ele dizia ter sido fundamental para sua formação como cineasta. Seu domínio no uso da luz era notável. Quais foram suas influências artísticas, não só de fotógrafos, mas de cineastas e artistas visuais?

Bob - A cada momento  sou assomado por algo ou alguém diferente mas talvez os mais marcantes em minha iniciação tenham sido Richard Avedon e Helmut Newton. Stanley Kubrick também me marcou, além de sua obra, o fato de ter sido fotógrafo sempre o distinguiu de outros. O filme Blow Up, por sua caracterização da figura do fotografo de moda, foi em parte responsável pela minha decisão adolescente de me tornar um.

MAM I BA – O que muda no seu olhar para produzir uma foto de moda, um ensaio para a Playboy e um projeto como “A Caminho do Mar” e “Cinépolis”?

Bob - Talvez em meu olhar mude muito pouco, o que muda são as injunções e problemas a serem resolvidos diante de cada situação. Só pra desintelectualizar um pouco nossa conversa, uma mulher pelada com certeza, suscita emoções diferentes em mim do que uma viagem a Cubatão.  Já uma sessão de moda é uma celebração que envolve um bocado de gente que busca realizar seu ego naquele trabalho. A Caminho do Mar e Cinepolis são trabalhos mais solitários, são de uma outra ordem. Não  hierarquizo é a tal história do transito. Estou lá e cá. Advogo este direito contra todos os guetos, talvez por ter nascido num.

MAM I BA – A ensaísta Susan Sontag, no livro “Sobre a Fotografia”, afirma que a confusão sobre verdade e beleza é subjacente à atividade fotográfica. Diz a autora: “Ao contrario do que é sugerido pela defesa humanista da fotografia, a capacidade que a câmera tem de transformar a realidade em algo belo decorre de sua relativa fraqueza como meio de comunicar a verdade”. Você concorda, em algum ponto, com este pensamento?

Bob - Se entendi bem, concordo plenamente, e acho que de fato a fotografia como a forma de expressão mais contundente de representação do real, suscita esta confusão. Porém, me coloco numa outra linha de frente, trabalho com ficção fotográfica: enceno, dramatizo, construo pequenos esquetes, apesar de fotógrafo não trabalho na tradição "ipsis literis". De fato, minhas fotos não comunicam uma verdade vista rapidamente nelas, mas quero crer e pretendo, que comuniquem alguma emoção subjacente àquela que está visível na fotografia pronta e exposta. Mesmo em Cinépolis, onde há uma aparente captação da realidade, digamos assim, aquilo tudo é mentira no sentido de que não é meramente representacional, é uma ficção servindo a um propósito verdadeiro.

Núcleo de Comunicação e Assessoria Artística do Mam.



                                                    




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